sexta-feira, 14 de junho de 2013

Rio Almonda, uma árvore, um vilarejo e a minha família

A maioria das cidades de antigamente surgiram próximas a alguma fonte de água potável, tais como lagos, rios, riachos, córregos e até mesmo do mar, no caso desse último, por conta da facilidade de transportar qualquer tipo de carga de uma região a outra. Isso quando não surgiam em serras de difícil acesso, já que as guerras eram comuns naqueles tempos (e ainda são), portanto a proteção também era um fator a ser considerado para o surgimento de uma cidade. Há ainda o caso das cidades que surgiram no meio de estradas, por conta de alguma rota comercial.
O Rio Almonda nasce numa gruta da encosta sudoeste da Serra de Aire (679 m), percorre aproximadamente 20 quilômetros até se encontrar com o maior rio da Península Ibérica, o Rio Tejo.
Se a toponímia for levada em consideração após divisão do nome desse pequeno rio (Almoda = Al + Monda) em dois termos, surgirão: a palavra árabe 'al' que nada mais é que o artigo definido o/a, e a palavra 'monda' que parece derivar de palavras de origem latina como por exemplo, 'mundus' que significa limpo. Logo, Almonda possui significado aproximado de 'o purificador', conforme o pensamento do arqueólogo Carlos Leitão Carreira (http://bit.ly/1J91VLf).
As águas desse rio correm próximas a diversas localidades até chegar na foz, entre elas, a Freguesia de Azinhaga, no concelho de Golegã, por onde passa por último até desaguar na margem direita do Tejo.
Essa localidade é considerada como a aldeia mais portuguesa do Ribatejo (http://bit.ly/243Pk4p).
Mais esse título não é a tôa, uma vez que já existia antes da fundação do país, no tempo em que boa parte do seu território era dominado por árabes, tanto é que, o termo 'Azinhaga', muito provavelmente deriva de 'azenha', que em árabe significa: apertar ou estreitar; ou ainda  'zenagga', que quer dizer em árabe, "muitas azinheiras juntas" (http://bit.ly/1XrSgDq).
Azinheira (Quercus ilex ) para quem não sabe, (nem eu sabia até pouco tempo atrás) é uma espécie de árvore que pode medir até 10 metros de altura e que existe em abundância em Portugal.
Sua madeira é dura e resistente à putrefação, sendo largamente utilizada, desde a antiguidade até os dias atuais, na construção de habitações (vigas e pilares), embarcações, barris para envelhecimento de vinhos e na fabricação de ferramentas. Ainda hoje, a sua madeira é utilizada como lenha e na fabricação de carvão, que continua sendo uma importante fonte de combustível doméstico em muitas regiões ibéricas.
Foi nesse vilarejo na beira do rio, próximo de muitas árvores que nasceram, o Mestre Antônio Nunes da Silva (1585-?) que se casou com Maria Jordão (1590-?). Foram pais de:
1. Capitão João Batista Jordão (1605-?), nascido em Alvorninha, no concelho de Caldas da Rainha. Se casou com Ângela do Amaral Gurgel (1616-1695) com descendência (já citada).
2. Padre Estevão Nunes, foi clérigo de São Pedro.
3. Coronel José Nunes da Silva (1611-1698), nascido no Rio Janeiro - RJ, Brasil. Se casou em 1639 com Méssia do Amaral Gurgel (1617-1687) com descendência (já citada). Sua esposa é irmã de Ângela do Amaral Gurgel.
4. Manoel Jordão da Silva se casou em primeiras núpcias com Cipriana Martins. Tendo ela falecido, se casou em segundas núpcias com Margarida de Lima (sem descendência conhecida dos dois casamentos).
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Suposições

O casal teve 4 filhos, no entanto é conhecido o local de nascimento de apenas dois. Chama a atenção o fato de o mais velho ter nascido numa aldeia longe da terra natal de seus pais. O que os motivou a deixar a aldeia há mais de 400 anos atrás?
Há uma via em Ituverava - SP, Brasil que se chama Rua Coronel José Nunes da Silva (http://bit.ly/1U1xafj). Teria sido essa a forma que algum possível descendente desse militar conseguiu homenageá-lo?
Porque todos os filhos do casal tem combinações de sobrenomes diferentes? Seria uma antiga forma de hierarquia relacionada a ordem de nascimento?
Jordão é o nome de um rio situado no Oriente Médio e que é muito importante no meio religioso, e também um sobrenome serfadita (http://bit.ly/1Wlvz2z)... Seria Maria Jordão um judia descendente dos judeus expulsos em 135 d. C.? (Provavelmente sim, isso explica as mudanças constantes de cidades... Vale ressaltar que seus filhos nasceram em locais diferentes e que na época em que ela viveu já ocorria a Inquisição Portuguesa).
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Caro leitor, o deixo admirando esse charmoso vilarejo português que espero um dia conhecer, fotografado por José Manuel Melrinho no alto da torre da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, foto cedida por Ana Peralta Gonçalves Melrinho para o blog Azinhaga. Confira mais fotos em http://bit.ly/1R38eBf. :)

terça-feira, 11 de junho de 2013

Uma Família do Século XVI

Os leitores e leitoras do blog Meu Sangue Brasileiro já devem ter notado que cito bastante o livro de Heitor Gurgel, hoje resolvi contar a história de como o ganhei.
Dia 23 de Junho de 2009 (terça-feira) tive uma conversa por e-mail com o primo Agnor Nunes Gurgel Júnior, em que relatei o pouco que sabia sobre a família da minha avó paterna.
Comovido com a história e percebendo que eu era um genealogista nato, me solicitou como resposta o meu endereço para que me enviasse um livro. Foi um gesto muito nobre.
Dia 06 de Julho de 2009 (segunda-feira), saía da Agência Alencarina  em Fortaleza - CE com destino a distante cidade de Manaus - AM, o misterioso livro.
Dia 09 de Julho de 2009 (quinta-feira), cheguei em casa, depois de voltar da escola (eu estava no terceiro ano do Ensino Médio). Quando cheguei, minha irmã me deu a notícia que eu havia recebido uma correspondência.
Ao ver o envelope, primeiro analisei as duas carimbadas que revelavam a origem da correspondência que veio lá da terra das jangadas. Não posso esquecer dos dois selos:
  • O da direita é a "Manicure" do artista plástico Hector Consani, que faz parte do catálogo de selos postais dos Correios desde 06/11/2006;
  • O da esquerda é "Marcel Gontrau', obra desaparecida do pintor Cândido Portinari, que faz parte do catálogo de selos postais dos Correios desde 08/12/2003;
(Costumava colecionar selos quando menino, por algum motivo parei, possa ser que com o tempo volte a cultivar esse hobby como antes, a ponto de me interessar pela filatelia, o estudo de selos postais);
Ao abrir o envelope, encontrei a fotocópia de um livro muito procurado, que já e reli diversas vezes.
Por se tratar de um livro em edição limitada, me sinto na missão de compartilhar as informações nele contidas.
Considerei e considero o livro como um presente de aniversário atrasado




P.S.: Se quiserem me enviar livros, os aceitarei de bom grado. :P

domingo, 2 de junho de 2013

Possíveis ramos extintos da família Gurgel do Amaral

Relato aqui um pouco mais da descendência do casal tronco Toussaint-Domingas, meu foco será apenas as suas filhas Ângela, Méssia e Antônia, no entanto escreverei apenas sobre alguns de seus descendentes.
Talvez esteja faltando um ou outro descendente (ou não), talvez haja uma data errada ou outra. Há algumas especulações pessoais, sendo que essas baseados em pesquisas em livros de genealogia e em alguns sites que tratam de genealogia.

4.5.1. Sebastião Gurgel do Amaral (1698-1764), se casou com uma prima distante, Isabel Viana do Amaral (1703-1773), filha do Tenente-Coronel Salvador Viana da Rocha e Antônia Correia do Amaral .
4.5.1.1. Antônio Viana do Amaral (1730-1746).
4.5.1.2. Capitão José Viana Amaral Gurgel (1731-?).
4.5.1.3. Sóror (Freira) Antônia do Salvador Amaral (1733-?).
4.5.1.4. Sóror (Freira) Francisca Joaquina de São José Amaral (1735-?).
4.5.1.5. Félix Correia Amaral Gurgel (1738-?).

4.6. Dr. Cláudio Gurgel do Amaral (1654-1716), figura história, teve filhos com uma outra mulher, cuja a identidade é desconhecida.
4.6.5. Francisco Gurgel do Amaral.

5.2.4. Joana Quaresma do Amaral, foi casada com o Capitão André de Souza Cunha (1675-1730), filho de Pedro Martins e Maria da Cunha.
5.2.4.1. Cláudio Gurgel do Amaral.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Francisco Gurgel do Amaral = Militar temido = Negociante bem-sucedido = Bad-boy

Muitos séculos já se passaram, e a obscuridade ainda estar a rondar a sepultura deste vulto histórico. Segundo o autor de uma Família Carioca do Século XVI, não foi possível encontrar registros de nascimento, óbito, batismo ou mesmo matrimônio. E sem estes documentos, as imprecisões reinam.
O que diferencia mais esta 'lenda' das lendas, são as muitas menções em documentos da centúria, Códices do Arquivo Nacional, do Conselho Ultramarino e nos Anais da Biblioteca Nacional e da Estadual, sem contar com as menções em obras já consagradas sobre a História do Brasil.
Que rujam os tambores! Senhoras e senhores vos apresento um dos primos do Dr. Cláudio, o Coronel Francisco Gurgel do Amaral (1665-1721). De acordo com a Nobiliarquia Paulistana, Francisco é tido como irmão inteiro de Bento do Amaral da Silva (ás vezes seu irmão assinava assim), marido de Escholástica de Godoy, o que fundou a família na Paulicéia e que é frequentemente confundido com o seu primo Bento do Amaral Coutinho. Acho que acabei desfocando por um instante a filiação de Francisco. Prosseguindo, Pedro Tasques (autor do livro citado) ainda menciona que Francisco era irmão do Frei Antônio de Santa Clara, das freiras Izidora do Amaral, Marta Josefa do Amaral e Marta do Amaral (professas no Convento de Santa Clara de Lisboa, Portugal) e também do Frei Luiz de Santa Rosa (http://bit.ly/1uzi94E).
Após essa leitura (aos que acompanham meu blog ou que conhecem bem a história desta família), o que se deduz é que Francisco é filho de Domingas do Amaral, filha de Méssia, portanto bisneto de Toussaint Grügel.
Assim como no caso de seu primo, pouco se sabe sobre a juventude de Francisco, a não ser é claro o que foi registrado nesta fase da sua vida: as suas muitas 'travessuras' na companhia de irmãos, primos e amigos, e que lhe deram má fama. (Parando pra pensar, para os padrões de hoje, Francisco podia ser considerado enquanto moço, um bad boy). Esses atos infratores acabaram por lhe agregar a autoria de alguns delitos, mas a imagem que fazem dele é demasiadamente exagerada.
A crônica policial lista dois importantes momentos de sua trajetória:
•  Em 1685 é incriminado como provável cúmplice no assassinato do Provedor do Erário Real, Pedro de Souza Pereira, o Môço. Mesmo não tendo participação no caso, achou prudente fugir para Inhomerim, na Baixada Fluminense, onde encontrou seu primo, o Dr. Cláudio e amigos deste (Vieira Fazenda). Tempos depois, quando questionado pela saída da cidade, Francisco disse um provérbio árabe: "nas tempestades de areia todos os camelos são iguais" (Anais da Biblioteca Nacional, vol. 13). Pois o crime foi praticado por um de seus consanguíneos, Bento do Amaral da Silva (acredito que seja o autor do Capão da Traição) e outros mais.
•     Em 1692, ele, seu irmão Bento, o fluminense Luiz Corrêa e "30 índios assaltaram as fazendas de alguns moradores, levando-lhes seus escravos." O rei D. Pedro II de Portugal mandou prendê-los (Carta Régia 24-11-1692), mas o Governador Luiz César de Meneses não pode, já que foram pra São Paulo (Vieira Fazenda).
Após um período de liberdade de puro Carpe diem (frase de um poema de Quintus Horatius Flaccus), Francisco passa a ter a sua existência atrelada as funções públicas, que coincidem com os momentos que o colocam definitivamente na história.
1.    Pelo que parece, em 1700, Francisco já era um minerador e tanto em Ouro Preto, se levada em consideração a passagem: "de vários ribeiros e da negociação com roças, negros e mantimentos, fêz Francisco do Amaral Gurgel mais de cinqüenta arrôbas" conforme Cultura e Opulência do Brasil, André João Antonil (http://bit.ly/15prFf2).
2.    Graças a sua riqueza, chegou a deter o Monopólio da Carne Verde entre o período 1701/06. Perdeu o posto para os paulistas chefiados pelo famoso e não menos invejoso (rs) Anhanguera II, Bartolomeu Bueno da Silva. Apesar de muito insistir nessa "queda de braço", o monopólio foi parar nas mãos do Frei Francisco de Menezes (também conhecido como o Frade Satânico) e de Pascoal da Silva (possível parente de Francisco). Percebendo que perdeu, se refugiou em uma de suas muitas fazendas, a do Bananal, perto de Vila Rica (atual Ouro Preto).
3.    Em 6/07/1706, Francisco após buscar D. Fernando Martins Mascarenhas de Lencastre, foi nomeado por ele como o mais novo Capitão-Mór Regente das Minas Gerais de Ouro Preto. Se não fosse tão rixento e cultivasse tantos inimigos (alguns bem poderosos), o Capitão-Mór teria conseguido pacificar toda a região que lhe coube dirigir, administrar e policiar. Ficou nesse posto até o ano de 1709 (os detalhes desse episódio serão descritos de forma mais detalhada em algum momento futuro).
4.    Mas isso foi por pouco tempo, logo mais era nomeado Capitão-Mór de São Vicente, em substituição do Capitão-Mór José de Goes Morais. Apesar do ambiente agressivo (os paulistas queriam derrubá-lo), se manteve indiferente até sua exoneração em Maio de 1710, não por conta da oposição e sim em virtude da extinção desta donataria. Consequentemente é tido como o último Capitão-Mór, dos loco-tenentes representantes das donatarias de São Vicente (Os Capitães-Mores Vicentinos, Francisco de Assis Carvalho Franco). Não encontrei uma versão on line, apenas uma ficha catalográfica da Biblioteca Nacional de Portugal (http://bit.ly/12UdAEN), espero que vocês tenham mais sorte.
5.    Um mês foi o tempo que ficou sem função pública, pois a 16/06/1710 era nomeado como Capitão-Mór da Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty. Penso que foi o mais benéfico dos seus cargos, pois desde 1702 já possuía fazendas e um importante empório comercial, com muitas tropas e tropeiros que faziam viagens até as Minas Gerais, através da Serra do Facão, levando víveres e trazendo quintos reais. O que lhe rendeu elogios do rei D. João V de Portugal. Apesar de afastado da região, Francisco ainda explorava uns lavradios auríferos em sua Fazenda do Bananal, o que o fez acumular fortunas sobre fortunas, fornecendo gêneros alimentícios, escravos, fumo, aguardente, pás, picaretas e enxadas aos mineiros, graças ás suas tropas e tropeiros.
6.    Francisco assim como parentes, não era de levar desaforo pra casa, querendo vingar-se das afrontas que sofrera em São Paulo, propôs a El Rey D. João V a compra da Capitania de São Vicente por 40.000 cruzados, proposta essa que inclusive chegou a ser discutida no Conselho Ultramarino, é o que cita Afonso d'Escragnole Taunay, História Geral das Bandeiras Paulistas (http://bit.ly/10EXkJD).
7.    Em Setembro de 1710, quando o corsário francês Jean-François Duclerc (?-1711), antes de invadir o Rio de Janeiro, quis desembarcar em Angra dos Reis ou Paraty, Francisco, valente que era se pôs a defender a cidade, trazendo de seus domínios rurais homens armados, o que lhe valeu em 12 de Dezembro o seguinte elogio tornado público para conhecimento e gratidão do povo pelo Governador Francisco de Castro Morais: "Tendo respeito ao honrado procedimento com que sempre se houve Francisco do Amaral Gurgel, no serviço de Sua Majestade havendo servido nos postos de Sargento-Mór de Ordenanças de São Paulo, Capitão-Mór e Superitendente das Minas Gerais e Provedor dos Defuntos e Ausentes em várias vêzes mandou conduzir por seus escravos os reais quintos de Sua Majestade e em cujas ocupações se houve sempre com muito zêlo e despendeu de sua fazenda e, pela sua pessoa e qualidades se faz digno de maiores emprêgos; e, na ocasião em que esquadra francesa invadiu essa cidade, no dia 19 de Setembro último, o sobredito Francisco do Amaral Gurgel vindo de Paraty, de sua fazenda com 120 escravos armados para defender a cidade de Paraty, ameaçada com o possível desembarque do inimigo, fazendo trincheiras e pondo nelas três peças de artilharia tudo a sua custa, e animando o povo paratiense ante a invasão que parecia iminente e por êle um sujeito capaz e benemérito HEI por bem prover e nomear por especial mercê a Francisco do Amaral Gurgel para o cargo de Coronel com exercício de Capitão-Mór de Paraty, com tôdas as honras, e privilégios comuns a tão alto cargo" (Códice LXXVII - Vol. 21 - Arquivo Nacional).
8.    Um ano depois (1711), Francisco realiza um novo feito. Saia ele de Paraty "com 580 homens armados a sua custa e veiu defender o Rio de Janeiro, já então em poder das aguerridas tropas de Duguay Trouin. Ao chegar, porém, Francisco encontrou a cidade pràticamente tomada pelos franceses e o Governador tão apavorado que, depois de enterrar caixões contendo baixelas e utensílios de ouro e prata, o chamou confiando-lhe os restos da infantaria para com ela proteger a retirada dos que ainda estavam na praça". Tendo conhecimento desse comando, "Duguay Trouin se dirigiu a Francisco peguntando se êle queria tomar a sua conta o ajuste da capitulação da cidade já que o primeiro intermediário, o Vereador Manuel de Souza Coutinho falhara na missão".  Tudo isso conforme Memórias Históricas do Rio de Janeiro, Monsenhor Pizarro (http://bit.ly/17SKNHz).
9.    Pra não passar por cima de autoridade, "Francisco mandou perguntar ao Governador, que continuava em Iguaçu, se êle poderia receber tal comissão. Francisco de Morais respondeu dando-lhe permissão para ajustar os têrmos finais da capitulação o que escandalizou de sorte o Mestre de Campo, João de Paiva, que logo começou a queixar, que não era justo que um homem de Paraty, viesse concluir um negócio  que êle havia principiado". Percebendo um conflito de interesses, o Coronel "recusou-se conversar sôbre o ajuste com o inimigo, logo na manhã seguinte porque, mandou êle arrogantemente dizer ao chefe francês: semelhantes ajustes não se costumam fazer debaixo de armas, mas que para isso não faltaria ocasião". Até que o D-Day chegou, já que recebera nova autorização do Governador que lhe mandou dizer que "não duvidava em lhe fazer a vontade em tudo, sem contradição alguma". Prestigiado, ele virou as costas para os adversários para concluir a capitulação da cidade, "enquanto não se entregava o dinheiro foram dados como reféns, o citado Mestre de Campo, João de Paiva e o Juiz de Fora, Luiz Fortes Bustamante de Sá" (Monsenhor Pizarro).
10.    Nos conta Monsenhor Pizarro, que chegando no Rio, Francisco se envolveu em outras batalhas contra os franceses. Na que travou na Rua Direita, a combateu com um punhado de homens, uma guarda avançada do inimigo vencendo-a e fazendo prisioneiros. (Penso eu que foi pra vingar e honrar sua família). Pois dias antes de tal feito, a alguns passos dali "os franceses festejaram ruidosamente com luminárias e outras demonstrações públicas, a morte de Bento do Amaral Coutinho que expirou de armas em punho, combatendo destemerosamente as hostes de Duguay Troin (Vieira Fazenda).
11.    E por mais uma vez, esta família (os Amarais) foram honrados. O Conselho Ultramarino e o próprio El Rey reconheceram "que um e outro poderiam obrar muito mais se não fosse a inércia do Governador". Francisco recebeu tempos depois , em meados de 1712, uma carta do Conselho Ultramarino em nome de D. João V de Portugal, "agradecendo-lhe a fidelidade, zêlo e valentia que mostrou em defesa da praça, e (que mais valeu a Francisco) perdoando todos os crimes imputados a êle, até aquela data" (Código do Arquivo do Conselho Ultrramarino, vol 21-a).
*Esta passagem se refere aos Amarais (Bento e Francisco) e ao Governador do Rio de Janeiro, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho.
11.    Em 29 de Junho de 1712, perdeu o cargo de Capitão-Mór de Paraty para o seu parente Félix Correia do Amaral. Tudo não passou de uma vingança do Governador Antônio de Albuquerque que além de o detestar, "ficara indignado com o perdão real que puzera por terra as devassas que êle mandara levantar sôbre a vida pregressa de Francisco, não só no Rio de Janeiro, como em Minas, Bahia e S. Vicente".
Tendo sido exonerado, Francisco se retirou da vida pública para cuidar de seus negócios e amores é o que nos conta, História Antiga das Minas Gerais, Diogo Vasconcelos. O restante da sua vida, não relatarei aqui pois se fazem necessários para construir a biografia de outros membros de minha família.

Baseado em pesquisas e na obra de Heitor Gurgel, autor de Uma Família Carioca do Séc. XVI.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Brasão de Armas das Famílias Queiróz e Ramalho

A história destas duas famílias está emaranhada, ao menos é o que se especula quando analisados os dois brasões de armas. A única diferença de um para outra é a mudança de cores do leão do escudo.
O Armorial Lusitano confirma isso ao citar que os da família de Quíros (grafia espanhola de Queiróz) tem por ancestral o Príncipe Constantino, filho dos Imperadores de Konstantinoúpolis e de sua mulher, Dª. Galinda Bernardo, que é filha de D. Bernardo del Cárpio e de Dª. Gosinda, que por sua vez é filha do conde D. Sancho Díaz de Saldaña e da Infanta Dª. Jimena (ou Ximena), que é filha do rei D. Froila (ou Fruela). 
Os linhagistas por varonia fazem como 4º neto do casal tronco Constantino-Galinda, Gonçalo Bernardo de Quíros, sexto Senhor de Quíros nas Astúrias, cavaleiro da Ordem da Banda, Conde de Santo Antolim, embaixador do rei D. Henrique II de Portugal ás cortes da Inglaterra em 1373, e libertador da cidade de Oviedo, que se encontrava sobre o jugo do Conde de Valença, pelo que ficou seu governador. Gonçalo teve de Dª. Maria de Nava, filha dos condes de Nava: Guterre Gonçalves de Quíros, sétimo Senhor de Quíros nas Astúrias, Conde de Santo Antolim, alferes-mor do rei D. João I de Portugal, durante a batalha de Aljubarrota, trazia a bandeira real nos braços que foram cortados na ocasião, pelo que então a trouxe nos dentes até a sua morte. O soberano português concedeu aos filhos que Guterre teve Dª. Sancha Queixada, filha dos senhores de Vila Garcia, Condes de Pena Flor a regalia de ele e seus descendentes serem enterrados na capela real de Toledo e fez mercê de poderem apresentar o arcediago de Gondim na Sé de Oviedo.
Os genealogistas fazem de Fernando Álvares de Queirós, fidalgo galego, irmão consanguíneo de Gonçalo, que foi a Portugal quando D. Fernando I lá já reinava. (http://bit.ly/16iwwDP).
E isto faz sentido, já que segundo o Armorial Lusitano, quando este passou a terras lusitanas, o soberano reinante citado lhe concedeu mercês de uns pisões e azenhas no termo do Alcácer do Sal em 20/11/1378. Algum tempo depois, o rei D. João I de Portugal deu ao fidalgo galego os senhorios de da Guarda e de Valhelhas. Fernando teve de Dª. Elvira de Castro (filha de D. Álvaro de Castro e de Dª. Maria Ponce de Leão): João de Queiróz que morreu sem geração, por morte de seu irmão Dª. Leonor Álvares de Queiróz ganhou as vilas de Valhelas e Barrelas, foi casada com Vasco Fernandes de Gouveia, alcaide-mór de Castelo Branco, senhor de seus direitos reais, e de Valhelas, Almendra, Castelo Bom, Lorica, Alvoco da Serra, Verdelhos e Gouveia.
O casal Vasco-Leonor teve João de Gouveia (dono de todas as terras de seus pais) que se casou com Leonor Gonçalves de Ataíde e teve: Ana de Gouveia que foi casada com Gonçalo Anes de Ramalho que tiveram por filho, Fernão Álvares de Queiróz, que por sua vez é pai de Branca Anes de Queiróz, que foi casada com Gonçalo de Queiróz (isto no século XV).
E é destas últimas três uniões citadas, que os Ramalho passaram a usar as armas dos Queiróz, com a devida mudança de cores.


Escudo d'Armas dos Queiróz: esquartelado: o 1º e o 4º de prata, com seis crescentes de vermelho, 2, 2 e 2;  o 2º e o 3º de prata, com um leão vermelho. Timbre: o leão do escudo.
Escudo d'Armas dos Ramalho: esquartelado: o 1º e o 4º de prata, com seis crescentes de vermelho, 2, 2 e 2;  o 2º e o 3º de prata, com um leão de púrpura. Timbre: o leão do escudo.

Fonte: Armorial Lusitano, págs. 455-457, 460.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Armorial Lusitano


Esta obra de Afonso Eduardo Martins Zúguete, já está na 4ª edição. A que conheço é a 3ª edição (1987) em volume único de capa dura de 733 páginas de pura genealogia, história, heráldica e nobiliarquia luso-brasileira. Encontrei esta versão online no seguinte link (http://bit.ly/1a554KG).

Abaixo a lista de sobrenomes presentes em tal obra:

terça-feira, 14 de maio de 2013

Detalhes do Casamento de Domingas

O casamento é a união entre um homem e uma mulher pela lei dos homens (civil) e/ou pela lei de Deus. Muitos matrimônios terminam em festas, que por sua vez foram planejadas durante semanas a fio. Se baseando em costumes da época e pesquisas, o autor Heitor Gurgel de Uma Família Carioca do Século XVI, descreveu o casamento da mãe dos Gurgel do Amaral ou Amaral Gurgel, filha do casal luso Antônio Diogo & Michaella.

Domingas, cercada de mucamas e amigas, deixava-se levar pela costureira que lhe experimentava no corpo, para os últimos retoques, o sonhado vestido de noiva. Dentro da casa, a azáfama era grande. Na cozinha, larga e espaçosa, pôsto que de terra batida e telha vã, negras escravas preparavam o jantar festivo. Já estavam prontos, em pratos de barro cozido, os pombos de salsa negra, os patos de piverada, frangões fritos, pernas de porco estofadas em vinho branco, peitos de vitela recheiados com linguiça, leitão assado, galinha à Fernão de Souza, feita com pedaços de carneiro, de toucinho, gemas de ovos e chouriços, um dos mais apreciados pratos da cozinha portuguêsa da época. Além das trutas preparadas a lisbonense, tão do agrado dos gourmets de então e da apreciadíssima muqueca de peixe, dos enormes guaiamús cozidos no próprio casco, como só os índios sabiam preparar, dos salpicões e dos perus de salsa real, havia ainda, em pratarrazes enormes, assados de carne de baleia, de vaca em manguito e à alemoa, tudo regado com bastante môlho de marfim ou do remolado. Um ou outro legume, mas em compensação sobravam as mandiocas, as farinhas d'água, da macaxeira e os beijús de mandioca puba. No aparador, soberba peça de madeira de lei vinda da Bahia, estavam os doces e as frutas. O delicioso pudim real, os fôfos sonhos, os esfarinhentos pães de ló, as compotas caseiras e as frutas da terra, entre as quais, os doces cajús e as pitangas tão apreciadas, e mais as peras e maçãs chegadas do Reino na véspera. Três ou quatro qualidades de queijo, além do afamado queijo da Serra da Estrêla. Entre as bebidas, os vinhos vindos de Lisboa e a rescendente cachaça que fazia ao verdasco séria concorrência. Para a indiada, e mesmo para alguns brancos e curibócas, havia o pertubador cauim.
[...] A noite foi festiva. No amplo terreno que servia de quintal, todo enfeitado com bandeirolas de papel de sêda e tendo o chão atapetado com fôlhas de mangueira, os escravos da casa e os que haviam vindo com os convidados dançavam o lundum acompanhados pelos atabaques, cazás, e agôgôs. Mais adiante, depois da senzala, afastados de todos, os índios da casa se reuniram e festejaram também a seu modo o grande dia, dançando e cantando ao som de seus estranhos instrumentos de percussão, os quelieques e herenchediocas acompanhados das flautas de bambú. Nos dois salões, após a suculenta janta, os pares rodopiavam, animados por um conjunto de violões, guitarras e sanfonas, até a alta madrugada. (...) Se alguém chegasse perto daquela casa onde reinava a alegria e tivesse ouvido para a música, poderia distinguir entre os sons de violões, guitarras e sanfonas, uma melodia nostálgica, dolente, triste como um lamento e, uns outros sons, estrídulos, quase onomatopaicos, destituidos de beleza melódica para ouvidos civilizados. As três raças formadoras do brasileiro, o branco, o prêto e o índio tocavam e dançavam... (páginas 42 e 43).